6.2.13

A substância especial das mulheres


A substância especial das mulheres
Por Aurélie Pfauwadel
Lacan Cotidiano 271
A vida é curta, e Sollers decidiu tê-las várias: ao lado de suas “vidas paralelas móveis” e dos múltiplos amores contingentes, atesta uma dupla vida com “estabilidade, aliás, complicada”. Seus  dois amores necessários : Dominique e Julia.
Dominique Rolin, “a mais bela mulher que eu encontrei” (ele tem vinte dois anos enquanto ela tem quarenta e cinco), com seus olhos azuis, seu riso em cascata. É a que lhe ensinou a estrita disciplina da escrita, “a travessia da vida e das aparências ao fim das palavras”. Aquela pela qual se alcança o que amar quer dizer para este homem: sacralizar  uma pessoa em seu corpo sensível e seu intelecto,  através dos meandros da existência, e até a morte. Até o fim, ele a amou e acompanhou – separação dilacerante quando ela morre, em maio de 2012. Durante trinta anos, ele encontrava incógnito em Veneza a bela Dominique, na primavera e no outono.
E então, há a que ele escolheu para mulher e que lhe dará um filho : Julia Kristeva, “engraçada, apaixonada, infatigável”. Sobre isso ele é de um pudor e de uma discrição notáveis. Eles pensaram escrever um livro à quatro mãos que poderia se chamar Le Mariage considere comme un des Beaux-Arts.  Mas não desejava se colocar como exemplo, o segredo dessa “relação sexual” inventada entre um homem e uma mulher estará finalmente ciosamente guardado.
Seguramente, isto fascina. Como o “turbilhão inteligente” o “delírio paralelo” – palavras de Baudelaire que Sollers gosta de citar – pôde funcionar durante mais de 40 anos?
Pois Portraits de femmes não relata somente “a experiência verídica de um homem das mulheres” – o que  atiça a curiosidade – mas se apresenta como a receita de um homem feliz com as mulheres. Sollers não vende suas angústias, seus problemas ou seus embaraços, como alguns romances sinistros ou autoficções de hoje. Ele escreve sua boa-hora (bon-heur, felicidade): sua boa sorte de ter encontrado algumas “mulheres milagres”, tesouros de mulheres livres, cheias de opinião, gostam da escrita, a leitura, a música, rir, dele. Contrariamente ao que se diz frequentemente, as pessoas felizes têm uma história, e corpos que ousam pensar e viver.
Então, como foram capturadas aí? A idéia de fidelidade sexual não tem nenhum sentido para Sollers. A autêntica fidelidade a um ser não está aí. A questão do ciúme é esvaziada em duas linhas, deixando o leitor com sua fome. A referência a Sartre e Beauvoir aflora, mas sobretudo a título de exaltação: o contraste de uma total transparência não é seu gênero de mercadoria. Ao contrário, a ciência do paralelismo e a arte do silêncio parecem requisitados. “A questão consiste em não se inquietar, alertar, lutar”. O tato é a palavra chave desse negócio. Quanto aos detalhes concretos dos ditos ou não ditos: disso nós não sabermos nada!
Sem confissão pública nem método, portanto. Mas Sollers entrega voluntariamente alguns conselhos ao jovem debutante: “Como um homem, você ganhou, se, além disso,  da autoridade versátil que ela reconhece em você, você a faz rir, você se tornou seu irmão, seu parceiro de jogo, e, sub-repticiamente, sua criança (...). Daí, vem às vezes, ligações indefectíveis”. O próprio Freud fazia desse ponto a chave dos casamentos que duram... Mas acriança, segundo Sollers, parece ter uma aceitação particular: é aquele que percebe abaixo da vasta comédia social e de seus semblantes fálicos, que não adere aos truques masculinos, nem desdobra o programa viril. A criança, no fundo, é a que é ainda capaz de se esgueirar na falha do sistema e de alcançar um ponto de vista mais verdadeiro e mais real: o das mulheres. Pois elas, as verdadeiras mulheres, “elas não acreditam nisso”.
É assim que cada mulher quer seja Musa inspiradora ou poderosa deletéria, constitui para Sollers uma janela sobre um fim real. Seus retratos semeados estalam em algumas palavras “a intensidade poética” das mulheres que ele conheceu, tentando alcançar o que faz a substância sempre especial de uma mulher tal como ele a experimentou.

26.1.13

Não toque na minha família


Não toque na minha família

por Hélène Bonnaud
Lacan Cotidiano 272

"Todo mundo só fala sobre isso", disse Jacques-Alain Miller, esta tarde.                             

Sim, há uma investida sobre a questão do casamento para todos, como se, finalmente, considerar o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo colocasse em efervescência os valores tradicionais da família. No entanto, o que é o casamento? Não é mais que um contrato que estipula um compromisso entre duas pessoas. Ter um filho, crianças, não é o resultado da união, mas, sabe-se há muito tempo, uma escolha que surge de um desejo particular. Não se casa mais para ter filhos, mas casa-se porque se ama... a criança vem  como suplemento, como o disse Freud sobre a cura, para a psicanálise.

A separação entre o casamento e o desejo de ter filhos levou a invenções formidáveis sobre a maneira de construir sua família, pois a criança é um objeto causa do desejo que supera a questão do casamento. Muitos homens e mulheres se casam mais tarde, na maioria das vezes para pagar menos impostos! O casamento perdeu muito do seu valor simbólico.

Na hora em que as boas e más razões lutam para fazer do casamento para todos uma causa de recessão da família, já podemos ver os efeitos provocados por esta agitação de um "não toca minha família" medíocre e fora de moda.

A família, portanto, permaneceria um dogma intocável? Uma coisa sagrada baseada no papai-mamãe de nossos contos infantis? Humm.

A psicanálise encontra os sujeitos que estão diretamente envolvidos com essas questões de compromisso' entre duas pessoas. O que é certo é que o discurso atual sobre a homossexualidade cria novos sintomas, principalmente com uma série de perguntas sobre sua identidade sexual, sua escolha de parceiro, seu desejo sexual, sua potência sexual ou sua falta de libido. Os jovens são, na verdade, muito menos defendidos diante dessas questões de identidade sexual, o que não é sem angústia.
Porém, para todos aqueles que escolheram sua orientação homossexual o casamento para todos tem como efeito remover as paredes remanescentes da vergonha e da exclusão. Isto significa que cada um agora terá o direito de fazer de seu parceiro o seu sintoma e de questionar sobre o que nem vem preencher nem satisfazer. Em suma, uma clínica que tem a chance de se fundir na lógica do não-todo.
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25.1.13

Há óvulos nos testículos!


Há óvulos nos testículos!
 por Anaëlle Lebovits-Quenehen
 Lacan Cotidiano 272

O velho mundo ficou para trás
Há várias razões alegadas para a recusa do casamento homossexual. Uma delas surge mais frequentemente de heterossexuais ligados à instituição do casamento (mesmo civil) da qual eles são o símbolo da ordem social. É por esta razão que recusam que essa instituição possa evoluir ao longo do tempo. Com relação a isso, tudo  acontece como se esta mudança tivesse que ajudar a ordem simbólica - sobre a qual nosso mundo repousa e participa de sua reinvenção -, a desmoronar, em vez de só constatar que esta ordem está tendo dificuldades.

Mas, por trás deste argumento, um outro também se faz ouvir e a ele é difícil permanecer surdo. Trata-se do "bem" dos filhos que surgirão desses casamentos, que poderão até ser adotados pelos casais "homo" casados que, assim, têm assegurado o livro de família que é emitido nessa circunstância. É, na verdade, uma diferença fundamental entre o PACS e o casamento, porque na ocasião deste segundo compromisso, o livreto é entregue aos contratantes.  Teme-se o pior para os pequenos seres cuja identidade será registrada em breve. É também em seu nome que os defensores da família tradicional descem pelas ruas para expressar sua rejeição ao casamento gay.

No campo

Àqueles respondemos que o  modelo de família do qual La petite maison dans la prairie se prevalece, não impede os prejuízos. Em outras palavras, a forma da família não é suficiente para garantir o bom tratamento das crianças que aí são acolhidas. E a clínica ensina, em particular, que se os pais e as mães se furtam, se fogem de suas responsabilidades, produzem efeitos nefastos sobre os seus filhos, os pais que se assumem como pais ou as mães que se assumem como mães não se saem muito melhor.

Ao contrário, a experiência nos indica que muitos casais homoparentais, as mães solteiras, as viúvas – que mais sei eu ainda?  – não estão se saindo mal com sua prole. Estes são os fatos que devem ser considerados no debate que anima a opinião pública francesa hoje, porque indicam que isto que opera com relação ao eventual “bem” das crianças não deveria, em nenhum caso, ser imputado à forma social da família que as acolhe. De preferência, imputemos isto à negatividade e o nomeemos com Lacan, desejo. Uma única pessoa pode fazer o desejo existir para seu filho, independentemente de seu sexo.
A fortiori, o desejo pode advir pela graça de duas pessoas que não precisam ser os pais biológicos da criança para a qual este desejo opera, por duas pessoas do mesmo sexo ou não, por homos ou por  heteros... Na verdade, estes detalhes pouco importam, mas de tudo isso o mais importante é não acreditar que um modelo qualquer de família poderá economizar, até mesmo aos pais mais apegados às tradições, a invenção perpétua à qual a acolhida de um novo ser convoca aqueles que têm essa responsabilidade.

Chegou a hora...
Então, se isto não é bem a felicidade da criança em sua família, que é a verdadeira questão neste debate, resta interpretar a vivacidade das emoções suscitadas por este projeto de lei. Um dos slogans dos "anti" revela, acreditamos, a questão fundamental disto de que se trata. Óvulos nos testículos, não! Ouvia-se, de fato, nas ruas da capital no domingo passado. Este slogan faz entrever duas equivalências, operando por deslizamento: óvulos = mãe e testículos = pai. Estas duas equivalências  causam o impasse sobre os termos que permitem passar do real anatômico à encarnação da função materna ou paterna. Por que as duas igualdades de que se trata são na verdade: óvulo = mulher = mãe e testículos = homem = pai. Por trás da tela do slogan que coloca a anatomia em primeiro plano, entrevê-se o osso da questão: a dificuldade que existe, para todo sujeito, de se localizar do lado homem ou do lado mulher. É certo que se esconder atrás do traje do pai ou da mãe pode ser uma resposta (num impasse) a este enigma.

A ordem simbólica e a função paterna que a representou por muito tempo estariam elas, hoje, tão ameaçadas que se precisa que um milhão de pessoas pretendam salvá-las com um monte de slogans? Em todo caso, parece que a defesa da ordem patriarcal é ainda mais viva do que esta ordem é vacilante. Teme-se que nenhum slogan, nenhuma lei (ou ausência de lei), nenhum decreto poderia reanimar a força.
Como o observou recentemente Jacques-Alain Miller (1), numa hora em que a natureza há muito tem sido escrita em linguagem matemática, ela não pode mais servir de referência para homens e mulheres para se identificar o sexo que a anatomia lhes proveu. Hoje é até mesmo possível, usando-se as leis da natureza elas mesmas, ir contra o destino prescrito pela anatomia e transformar um homem em mulher, uma mulher em homem, passar-se de um como do outro para criar a vida humana. Em resumo, justamente, há óvulos nos testículos. E mesmo a lutadora Frigide Barjot não pode mais nada agora em relação a isso!

(1): artigo de Jacques-Alain Miller - Casamento homossexual: esquecer a natureza

24.1.13

Casamento, divórcio e companhia…


Casamento, divórcio e companhia…

Por Pierre-Gilles Guéguen
Lacan Cotidiano 270

O debate sobre o casamento homossexual leva a perceber o quanto a psicanálise, hoje em dia, faz parte da cultura francesa. Nunca se escutou tantos psicanalistas dando suas opiniões "de especialistas" como nesse debate. E, no entanto, nunca a psicanálise foi também tão violentamente criticada. Ataca-se Lacan pelo fato de que ele seria homofóbico1, ou contra os transexuais2, servem-se de uma citação apressada, saída de um índice, e interpretada de forma errada, para sustentar comentários, cuja má intenção já está estabelecida. Além disso, no domínio da saúde mental e no domínio universitário, assiste-se a uma política decidida para a erradicação da formação psicanalítica. Julgam Freud por ter enganado sua mulher com sua cunhada: grande negócio!
            Não creio que os psicanalistas tenham que legislar ou substituir os políticos e os juristas no que diz respeito ao  bem e o mal em matéria de sexo, o que é e o que não é aceitável na criação de perfil das atividades sexuais… dos outros. Lacan estabeleceu, definitivamente, a meu ver: não existe relação sexual (o que não impede que muitas coisas se inscrevam nesse lugar vazio).
            Na democracia, quer dizer, nos regimes não totalitários — aqueles que permitem o exercício da psicanálise — é através das vias legalmente previstas que a legislação fabrica e elabora os códigos que regem as condutas. Como cidadão, eu sou favorável ao homomariage (homocasamento). O casamento é um contrato civil. Aquelas pessoas, cujas crenças religiosas fazem com que considerem o casamento como um sacramento, reservado a duas pessoas de sexo oposto, podem também se casar religiosamente.
            Se me pergunto, por outro lado, sobre que obstáculo haveria hoje para a doutrina psicanalítica ajudar a posicionar, segundo as vias legais, um casamento homossexual (perdão, não "para todos" !), e até mesmo uma parentalidadehomonormée, eu diria que não vejo nenhum.
            Não acredito na idealização da família, que aliás não para de evoluir, desde a família romana, passando pela família patriarcal do século XIX, até as famílias recompostas de hoje em dia. Minha análise ajudou-me a tratar isso. E, Lacan não tinha nenhuma ilusão com a família. Desde 1938, ele tinha previsto o fim do modelo padrão, e todo seu ensino consistiu em sair, gradualmente, da normatividade edipiana. A fase de sua elaboração do "Nome do Pai " já era um distanciamento em relação ao pai da realidade e aos deveres que a religião lhe impunha.
            Lacan —  que é criticado, ou de quem se prevalece a torto e a direito —  nos ensinou, especialmente no Seminário 20 e no Seminário 23, que a lógica do laço social e da sexuação não é uma lógica da identificação, mas uma lógica do gozo.
            Penso que é isso que perturba uma boa parte dos franceses; não é que os homossexuais se casem, é que um lugar foi conquistado, em nossos dias, por aqueles que eram tolerados às margens, e que se encontram, através de um desvio sócio-topológico, no centro da atenção.
            O gozo é autista, tanto do lado feminino, quanto do lado masculino. A solidão de todos está assegurada, salvo se se encontrar num parceiro seu sintoma como modo de gozo. E é o amor que permite essa passagem, e favorece o laço social: as mulheres são mais sensíveis a isso que os homens. Alguns sentem a necessidade de fazer de tal jeito que esse amor possa tomar uma forma oficial, isto apóia e sustenta sua posição de gozo, os « estabiliza » num lugar à luz do sol. Não há nenhuma razão psicanalítica para lhes recusar isso.
            A psicanálise não nasceu no céu platônico das ideias, mas em uma prática inventada em Viena, onde Freud se deixou ensinar por seus pacientes. Hoje, mais do que nunca, é importante lembrar : o gozo dos outros é sempre difícil de suportar ; suportar o próprio gozo também é difícil, frequentemente. É por isso que procuramos um psicanalista.
            Se, porventura, me perguntassem se sou a favor do divórcio homossexual, eu diria : sim.

Notas
__________
1  Eribon D., Une morale du minoritaire, Fayard, Paris, 2001, p 235-275
2 Relatório da HAS sobre « La situation actuelle et les perspectives d’évolution de la prise en charge médicale du transsexualisme », de novembro de 2009, publicada em fevereiro de 2010.  (relatado por Laetitia Jodeau-Belle)

23.1.13

ENTREVISTA:Sobre o casamento para todos - Com Jacques-Alain Miller


Sobre o casamento para todos

Com Jacques-Alain Miller
Lacan Cotidiano 267

O que  o levou a assinar o Manifesto do Nouvel Observateur (1), publicado hoje?
Não me antecipei. Assinei porque me pediram. Especificamente, Eric Aeschimann, que é jornalista de lá, e que passou por mim na  Escola Normal Superior na noite em que li  textos de Lacan no pátio. Fiquei surpreso com um pedido vindo daquelas bandas, pois aquele semanário sempre se mostrou hostil a Lacan, que lhe pagava  na mesma moeda, e também aos seus seguidores, que lidam com isso.
 Você era a favor, antes?
Minha ideia não era de modo nenhum engajar meu nome. É um assunto no qual as sensibilidades estão à flor da pele, dos dois lados, e não cabe a um analista pôr pimenta nas feridas. Aliás, a Escola da Causa Freudiana, como instituição, não debateu a questão e nem se posicionou. Contudo, propus ao Conselho de administração da Uforca (2) organizar as nossas Jornadas Anuais sobre o tema, nossas Jornadas clínicas.  Concordamos  com este título: « Quando os desejos se tornam direitos ». O cartaz já foi divulgado. O evento terá lugar em maio, na Mutualité, é aberto a todos e não reservado às Secções Clínicas.
O que o levou a aceitar se comprometer pessoalmente?
Fiquei cada vez mais irritado ao ver circular na mídia que «  os psicanalistas » estavam contra, e até mesmo que eles iam desfilar contra – li isso no Le Figaro. Acho que essa impressão deve muito ao ativismo do nosso colega Winter, que se propagou muito. Eu o conheci no tempo da Escola freudiana, era um analisante de Lacan, um autêntico. Ele empreendeu uma campanha com afinco, tanto no jornal L’Humanité como nos Études (3), a revista dos jesuítas, nós o vimos por toda parte. Achei que era forte demais meter a psicanálise assim, por conta da religião. Dito isso, Lacan já havia previsto que, com o desejo de Freud de salvar o pai, a Igreja acabaria por se dar conta de que ele lhe propiciaria argumentos. Pois bem, chegamos lá. E isso não me parece conforme à orientação lacaniana. É bem o seu oposto.
Então, você é sobretudo contra os contra ?
O momento de concluir chegou para mim da seguinte forma. Primeiro, em 20 de dezembro, assinei o texto de l’Obs. No dia seguinte, pedi a Clotilde Leguil o texto que Marianne lhe pedira para escrever sobre o assunto, muito bom artigo por sinal, e que ainda não foi publicado na revista(4). Naquele mesmo dia, vi que o papa tinha escrito uma matéria no Financial Times (5). Isso não acontece todos os dias. Fui ver no site. De lá, me remeteram ao Osservatore Romano (6). Cliquei, e pude ler em italiano a alocução do papa na Cúria, por ocasião do Natal. Ali, ele citava com fervor um opúsculo do Grão Rabino Bernheim (7), difundido na Internet. Reportei-me ao texto e vi que ele não se apoiava apenas na Bíblia para se opor ao casamento gay, mas também, em filigrana, em Freud e no Édipo. Os textos do papa e do rabino eram bem feitos, tomavam como ponto de partida o primeiro capítulo do Gênesistive vontade de responder. Daí, propus à minha correspondente no Le Point de escrever sobre o assunto. Até aquele momento, o jornal tinha sido muito discreto sobre essa questão, mas Giesbert deu sinal verde. Eu então redigi o texto publicado na semana passada.

E a partir daí, você vai continuar?
Claro. Não vou largar o osso. Redigi um segundo texto para o Le Point, que deveria sair na próxima semana. É sobre a teologia do casamento, a que está sendo elaborada atualmente, na linha aberta por João Paulo II.  Estou também em contato por e-mail com Di Caccia, que está muito bem informado sobre isso, que me deu referências muito úteis, e a quem mando meus textos antes de publicá-los.  Acho prodigioso o esforço intelectual feito pelo Vaticano na revista Communio, por exemplo, há anos, para dar à sexualidade o  lugar dela no dogma. Respeito imensamente, mas, ao mesmo tempo, me diverte ver como a interpretação é maleável a todos os sentidos, como dizia Lacan, para depois negar que aconteça assim numa análise. Nessa teologia renovada, vejo a um só tempo a incidência de Freud, e isso me agrada,  mas penso ser ainda mais necessário sublinhar como Lacan não se deteve na metáfora paterna, no Nome-do-Pai, tendo chegado à  pluralização dos « non-dupes errent » e à inexistência da relação sexual. Se levarmos isso a sério, podemos nos opor ao casamento gay por todo tipo de boas razões, por gosto, pelo dogma, pela tradição, porque é preciso « defender a sociedade », enunciado estudado como tal, por Foucault, ou para proteger as crianças, etc., mas não se pode fazê-lo em nome da psicanálise. É simples.

 Em sua opinião, todos os analistas deveriam assinar esse manifesto?
Não. Os analistas não são somente analistas. São também católicos, crentes, ateus, homossexuais, conservadores, progressistas, etc. Podem ser contra ou a favor, pensar que devem se engajar ou que ficariam muito visados, e que mais vale conservar o silêncio prudente de Conrad. Mas, como alunos de Lacan, eles não podem, a meu ver, se opor ao casamento gay em nome da psicanálise. Podem fazê-lo, claro, mas isso é incoerente, é um contrassenso, pelo menos como eu entendo Lacan. Minha ideia, já a disse em meu curso, é que os psicanalistas sempre estão atrasados com relação aos efeitos da análise. É evidente no caso de Freud. Isso não vale para Lacan, cuja lucidez tomou um jeito profético. Para nós, na Escola da Causa Freudiana, é verdade, mas nos esmeramos para não nos deixarmos distanciar demais.
A seu ver, a Escola tem algo de específico a fazer ?
As coisas andam rápido. Tudo vai tão rápido. O governo contava evidentemente que a questão passasse, senão às escondidas, pelo menos às pressas, sem debate, apoiando-se nas previsões que davam uma ampla maioria da opinião a favor. Por que não ? Só que as diretivas do Vaticano eram claríssimas: lutar contra. A hierarquia já havia combatido na Espanha e se lançou na França de modo refinado, num estilo que sempre me agradou: Não se precisa esperar para se jogar na batalha. Portanto, vamos provavelmente ter um debate à francesa sobre este tema. Gosto disso. E não há apenas o manifesto do Nouvel Observateur, há também B.H.L noLe Point que sai hoje (8). Ele se posiciona com brilho, valendo-se de anáforas. Isso não deve ter sido muito fácil para alguém cuja estratégia consiste em tratar a Igreja com deferência. Não nos esqueçamos de que ele defendeu Pio XII. Os contra, armados pelos melhores teólogos, têm respaldo. Num tal contexto, a psicanálise está em jogo no debate público. Para mim, “pessoalmente”, acho que o meu lugar junto a Lacan, aquele que ele me deu para a difusão do seu ensino, me põe no dever de objetar o uso da psicanálise para fins apologéticos a favor da rejeição do casamento gay. Para a Escola, depende. Ela tem escolha.

Qual é a escolha?
Ou dizer que não cabe a ela tomar posição enquanto instituição. A meu ver, essa é, ou será de fato, a posição de todos os grupos analíticos. E é verdade que tomar posição não seria simples. Seria preciso consultar o conjunto dos membros, embora, por e-mail, isso não seja impossível. Além disso, ainda não houve trabalho da Escola sobre o assunto.  Pensei que o Colóquio de maio o iniciaria. A outra opção, pelo contrário,  é dizer que a Escola, da qual Lacan foi o primeiro presidente e que se estabeleceu a partir do seu ensino, tem o dever de recusar a instrumentalização da psicanálise e de afirmar que nada na experiência psicanalítica autoriza a sacralizar a forma atual da família e a rejeitar, por motivos psicanalíticos, o projeto de lei a respeito do casamento para todos. Não é ser a favor, é recusar ser contra em nome da psicanálise. Na verdade, existe uma terceira opção: a Escola se declarar a favor.  Mas qual seria a maioria necessária para que a Escola pudesse falar em nome de seus membros sobre tal questão ? A maioria simples seria, a meu ver, insuficiente. Os 2/3 ? Quando nos lançamos contra a emenda Accoyer tivemos, numa Assembleia geral, a unanimidade menos uma voz. Acho que cabe ao Conselho da Escola estudar essas opções, mesmo se for para decidir não se mover. A posição “não estou aí pra ninguém”,  sempre tem seu charme para os analistas em grupo, mas, por vezes, ela é desaconselhada. Será que a Escola deve  ficar à parte no momento em que a psicanálise é o que está em jogo, e não o alvo, na “esfera pública”, como diz Habermas ? Por força de não ir à luta para defender o discurso analítico, um grupo arrisca sempre se tornar uma SAMCDA (+). A verdade é que não consigo deixar de  pensar que se a Escola escolhesse a opção 2, sem falar da 3, seria a única a fazê-lo, e isso é muito atraente. Uma tal tomada de posição repercutiria na opinião pública. Dir-se-ia: nós, os lacanianos ortodoxos, recusamos que se instrumentalize a psicanálise a fim de se opor ao projeto de lei sobre o casamento para todos.

A Direção da Escola, sob a iniciativa de Jean-Daniel Matet, decidiu inserir na programação das Jornadas da Escola, em 2 de fevereiro, uma mesa-redonda sobre o assunto, que reunirá Jean-Pierre Deffieux, Clotilde Leguil e Jean-Pierre Winter (9).
Ótimo começo! Teremos, portanto, um debate contraditório. Seria também interessante que Lacan Quotidien recolhesse as opiniões dos membros da Escola, a dos seus leitores em geral.

                                                                             Entrevista realizada por Anne Poumellec
                                                                                                Paris, o 10 de janeiro de 2013

21.1.13

Casamento homossexual: esquecer a natureza


Casamento homossexual: esquecer a natureza
Por Jacques-Alain Miller
Lacan cotidiano 265

A tradição vaticana pretende que, justo antes do Natal, o papa responda aos almejos da Cúria Romana reunida na Sala Clementina. O discurso deste ano, enaltecido pelo L’Osservatore Romano como «um dos mais importantes de um pontificado que não cessa de surpreender», denunciava «o atentado à forma autêntica da família, constituída pelo pai, pela mãe e pelo filho». A esse respeito, o Soberano Pontífice dignou-se a comentar «o tratado cuidadosamente documentado e profundamente tocante» que o Grão Rabino da França publicara em outubro passado, sob o título «Casamento homossexual, homoparentalidade e adoção: o que esquecem de dizer».
Essas altas autoridades espirituais, uma intervindo em nome da «solidariedade que [a] liga à comunidade nacional da qual[ela] faz parte», a outra conectando-se a uma preocupação pastoral estendida à «situação atual da humanidade», dão ao debate francês sobre o casamento para todos um móbil fundamental e verdadeiramente apaixonante. Seria mesquinho utilizar a laicidade como cera para vedar os ouvidos. Vejamos, antes, o argumento.
Casar dois homens ou duas mulheres, e não apenas um homem e uma mulher é, nos dizem eles num mesmo impulso, negar a diferença sexual. Ora, não está dito, desde o primeiro capítulo do Gênesis: “E Ele os criou macho e fêmea”? Essa dualidade é a um só tempo um dom divino e um dom natural. Ela “pertence à essência da criatura humana”, diz o papa, ela é constitutiva de sua “natureza própria”. É um “fato de natureza penetrado de intenções espirituais”, interpreta o rabino, que considera a “complementariedade homem-mulher” como “um princípio estruturante”, essencial à organização da sociedade e admitido por uma “grande maioria da população”.
Uma animosidade penetrante, veemente por parte do judeu, distanciada no que concerne ao outro. Ao lê-los, compreende-se que o projeto de lei socialista incomoda o plano divino e que ele é a um só tempo blasfematório, contra a natureza e antissocial. Gilles Bernheim atribui “aos militantes LGBT”[1] a intenção de “fazer explodir os fundamentos da sociedade”. Joseph Ratzinger estigmatiza a pretensão do homem de “farsi da se”, fazer-se por si mesmo: negação do criador que é negação da criatura, utilizando-se da mesma “manipulação da natureza que deploramos hoje, quando ela concerne ao meio ambiente”. Aliás, o L’Osservatore fala de “proteger a ecologia humana e familiar”. Nenhum deles perdoa Simone de Beauvoir por ter escrito, em 1949: “não se nasce mulher, torna-se mulher”.
Esse front unido judeu-cristão, enraizado no mesmo relato bíblico, mascara muitas fissuras. A lei judaica, em sua origem, fazia do casamento um ato profano, um contrato civil, antes de ele se tornar uma cerimônia religiosa na época talmúdica.  Em S. Tomás há, entre lex naturalis e lex divina, uma relação mais finamente articulada que no agostinianismo papal. A doutrina luterana dos dois reinos torna difícil, apesar de Karl Bath, dar à natureza uma tradução em termos de lei positiva. Etc.
Os psicanalistas estão igualmente divididos. Muitos deles trazem ao discurso religioso a contribuição de um Freud que subscreve o aforismo de Napoleão: “A anatomia é o destino”. Quando o Sr. Bernheim evoca as “estruturas psíquicas de base” necessárias à criança, será a Bíblia que o inspira? Ele pensa, antes, naquele Édipo do qual Lacan previa, outrora, que ele um dia serviria para re-insuflar uma imago do pai deteriorada pela ascensão do capitalismo.
Todavia, extrair a estrutura do drama edipiano apaga seus personagens para fazer ressaltar as funções. A função do desejo em afinidade com a transgressão e desafiando toda norma por ser determinado pela lei (segundo a palavra de São Paulo): “Eu não conheci o pecado senão pela lei”. A função do gozo que só os captura, quando da primeira vez, pela surpresa e pela efração, deixando-lhes uma marca destinada a se repetir. Nada na experiência analítica atesta a existência de qualquer relação de harmonia preestabelecida entre os sexos. Essa relação foi sem dúvida elucubrada, progressivamente, de mil formas imaginárias, instituídas e individuais. Contudo, definitivamente, o que o inconsciente grita, a plenos pulmões, dizia Lacan, é que a relação sexual não existe.
Estamos nisto. A natureza deixou de ser crível. Desde que a sabemos escrita em linguagem matemática, o que ela diz conta cada vez menos, ela se retira, cede lugar a um real tipo Bóson de Higgs que se presta ao cálculo, não à contemplação. O ideal da justa medida não é mais operatório. Se a ciência veicula a pulsão de morte que habita a humanidade, creem vocês que um comitê de ética, mesmo inter-religioso, possa represá-la? Isto, hoje, é o patético da fé. Escutemos o poeta, quando ele se chama Paul Claudel: “Há outra coisa a dizer às gerações futuras além desta palavra enfadonha: “tradição”.

Tradução: Vera Avellar Ribeiro

▪ CASAMENTO PARA TODOS ▪


 CASAMENTO PARA TODOS 
Lacan Cotidiano Nº 270
Será que os psicanalistas que se opõem ao casamento homossexual apregoam um saber que não têm ? Por que, na sua opinião ?
Eu não diria que eles apregoam um saber que não têm. Eles têm, certamente, um saber que eu não tenho, pois alguns deles conheceram Lacan e exercem a psicanálise há muito tempo. Mas eles utilizam os paradigmas freudianos de forma rígida. Isso dá uma visão da psicanálise desconectada de seu tempo, como se a psicanálise tivesse permanecido no complexo de Édipo e numa ideia normativa de família. A experiência analítica conduz mais a uma descontrução de toda ideia de família normal.  Que haja analistas que se interroguem sobre as consequências do casamento homossexual na sociedade e na família, isso eu acho apaixonante, aliás.
            Duas coisas, no entanto, fizeram questão para mim. Por um lado, os psis que eram contra o casamento homossexual davam uma visão datada da psicanálise, apoiando-se no complexo de Édipo, como se tivéssemos ficado ali. Por outro lado, e é quase o inverso, aqueles que não eram contra, pois também existem os a favor, que afirmavam que não era possível no século XXI se basear nas ideias de Freud, que eram ideias do século XIX. É o que dizia Serge Hefez, no Figaro. Essas intervenções dos psis me inspiraram, porque eu penso o contrário, que as ideias de Freud, tais como Lacan as decifrou, e depois, os avanços de Lacan, nos permitem pensar de maneira muito esclarecedora o que se passa em nossa civilização. A mensagem de Lacan, após Freud, certamente não é « salvemos a família tradicional », ou, « que a ordem reine ».

Você ressalta que o tipo de vida homossexual mudou. Será que nós podemos tirar daí um ensinamento sobre a civilização atual ?
Sim, porque, afinal, a vida familiar é um tipo de vida, mas existem outros. É o que dizia Aristóteles a propósito da felicidade. Não há somente uma maneira de buscar a felicidade. O tipo de vida homossexual representou, por muito tempo, uma antítese ao tipo de vida familiar: união livre, sem filhos. A geração estruturalista, com grandes figuras como Michel Foucault e Roland Barthes, encarnavam também um outro tipo de vida, que a vida clássica em família. A tal ponto que os heterossexuais podiam também aspirar a esse estilo de vida. Pode-se também transmitir algo ao se produzir uma obra : intelectual, artística, científica, política…
            E depois, finalmente, como dizia Lacan, a família é um resíduo. Ela permanece  para além de todas as transformações da sociedade e da vida sexual, um núcleo « real». As pessoas querem, portanto, uma família.
            Ela é realmente o lugar da transmissão da vida e da linguagem. A família, após ter sido objeto de rejeição por parte dos homossexuais, é objeto de desejo. Pode-se ver isso de maneira dialética. Afinal, pode ser que esse momento « anti-família » tenha preparado o momento que vivemos no século XXI : uma verdadeira mutação da família.

Os psicanalistas afirmam que as normas não devem mudar. O que se pode dizer a eles ?
Creio, sobretudo, que esse debate é a ocasião para mostrar que, com Lacan, e, particularmente com seu último ensino, tal como Jacques-Alain Miller nos transmite, ao explicitá-lo, temos os meios para pensar o que se passa, hoje em dia, em nossa sociedade. Estamos em contato com essas convulsões sociais. O teólogo Xavier Lacroix escrevia contra o « casamento para todos » no Le Monde, que « os homossexuais querem entrar na norma, subvertendo-a ». Achei isto muito lacaniano como formulação, e fiquei surpresa com essa referência a Lacan para criticar a subversão das normas… isso também me inspirou.

Os psicanalistas com Lacan : nenhum medo?
De que se pode ter medo, afinal ? O que sai dos debates é que temos medo do apagamento da diferença entre os sexos, e medo de pôr em perigo as crianças, confundindo as referências da transmissão. São medos legítimos. Sobre essas duas questões fundamentais, podemos, com Lacan,  nos comprometer em dizer alguma coisa, sem denegrir a angústia que pode suscitar essa transformação do paradigma da família normal e da filiação. Não se trata tanto de dizer que isto não nos dá medo, como se toda mudança fosse necessariamente boa, mas de ver, de fato, que se trata aí de uma metamorfose, que nos obriga, como escreveu Jacques-Alain Miller, a fazer o luto de uma referência à lei natural. Como pensar uma ordem e limites sem fazer nenhuma referência à natureza ? É o que está em jogo no debate.

Entrevista feita por Anne Poumellec
Paris, 12 de janeiro de 2013